Artigos

Simplicidade é sabedoria

Daniela Leite

Vida no mato. O saber do caboclo. A vida real é bem mais simples do que essa que ficamos tentando agarrar e reconhecer nos grandes centros urbanos, onde a correria diária nos deixa esquecer das nossas raízes, dos nossos conhecimentos ancestrais e de nos percebermos absolutamente parte da natureza, do criador.

A felicidade manifestada em brincadeiras simples, num elogio por uma comida bem feita, na atenção recebida por uma explanação qualquer. Sentir e conhecer as ervas, as plantas de poder, tirar o sustento, os alimentos e remédios da floresta. Pessoas que sabem ser feliz!

Alguns dias num barco, percorrendo os rios Tapajós e Arapiuns, afluentes do rio Amazonas, visitando algumas comunidades ribeirinhas, e pude me nutrir desse sentimento autêntico de alegria. Ao chegar nas comunidades, as crianças logo se juntam para nos receber, riem conosco, da nossa ignorância sobre fatos tão cotidianos na vida delas, como subir numa árvore, se pintar de urucum, nadar com tartarugas, conhecer as plantas e para que elas servem.

As conversas que vão nos revelando, de um modo tranquilo, a grande sabedoria de cada um. Grandes sábios, mestres da natureza, que regem e participam daquela sinfonia como ninguém. No falar manso vão nos revelando as dádivas da natureza e seus encantos. Uma espécie de formigas que serve de repelente natural para outros insetos (tem até cheiro de repelente), cipós que ajudam a curar inflamações, breu branco (tirado da casca da árvore denominada Faveira) que elimina a dor de cabeça e tantas outras mil facetas de cada cantinho da floresta, no olhar atento do povo daquele lugar.

Dormir na rede, dentro do barco, ancorado num abrigo qualquer, podendo sentir a natureza pulsando no peito, no coaxar dos sapos, pio dos passarinhos, barulho dos botos respirando próximos de nós. Vida que pulsa no peito e na alma e nos faz sentir parte de tudo.
Ver a mata alagada, árvores submersas e seus reflexos na água, mostrando que tudo é inconstante, vibrante, pulsante. Parte do ano tudo se alaga para depois tudo florescer e revelar as praias nos meses vindouros. Para tudo há um ciclo, um momento, um olhar.

O que é riqueza para você? Ando pensando muito nisso. Pra mim, é ter tempo, ter ao meu lado uma cachoeira, nadar no rio ou no mar, um pedaço de verde, sentir a relva nos pés, estar em contato com a natureza e suas transformações e impermanências. Fluir no bailado da vida, dessa vida na mata que nos faz lembrar quem somos, reconectar. Vida do povo simples, do papo reto, das poucas palavras. Do café coado no bule, cantar dos passarinhos, dos peixes pulando no rio, do remo da canoa na água.

Nessa viagem me lembrei muito da minha avó, Margarida era seu nome, filha de pai índio e mãe cabocla. Mulher de garra e carisma, estampados em seu olhar doce e caminhar vivo, carregava consigo esse saber popular. Muitas vezes chegava na casa dela, a procurava por todo canto da casa e nada da minha avó. Quando saia no quintal, a via, com seus setenta e quatro anos, no último galho da jabuticabeira, apanhando frutas para nos agradar. Fazia remédios e infusões com plantas. Seus pães faziam dos nossos cafés da tarde um verdadeiro banquete. Ela sabia expressar essa simplicidade e autenticidade de uma forma muito linda. Cativava a todos ao seu redor com suas estórias e lendas e seu jeito alegre e brincalhão de encarar a vida.

Hoje vejo como são importantes pra mim esses momentos de ir ao encontro com a verdadeira essência que nos liga a essa terra. Eles me nutrem e me conectam, dando força para a vida pulsante e frenética que levamos nos grandes centros urbanos.
Carrego esses momentos, quando medito diariamente. Me transporto para esses lugares e sinto, então, a natureza dentro de mim, comigo sempre. Dessa forma, posso estar plena em cada lugar, em todo instante. Quando a ansiedade me invade, respiro, silencio e busco esses lugares e a sensação de paz ali vivida, para novamente me nutrir e seguir. Simplicidade é sabedoria.

Mottainai, muito além do desperdício

Daniela Leite

Nossa querida curadora Michi Provensi nos apresentou a palavra japonesa Mottainai, que pode ser traduzida de forma geral como desperdício, mas seu conceito é bem mais amplo que isso. Para entendermos temos que relembrar os tempos difíceis do pós-guerra, quando a fome e a pobreza reinava no Japão, o povo vivia momentos de escassez e reconstrução.

Sendo uma ilha de poucos recursos naturais, os japoneses aprenderam a valorizar cada grão de arroz. E o conceito de Mottainai foi ganhando contornos mais amplos, vai muito além de repudiar o desperdício material. Também abrange ações que geram desperdício de qualquer natureza, incluindo emocional e espiritual.

Assim, estamos diante de mottainai quando encontramos um coração vazio ou repleto de sentimentos ruins.

“Mottai” é um termo de origem budista e trata da essência das coisas, que sugere que os objetos não existem isoladamente, mas estão intrinsecamente ligados uns ao outros em todo o Universo.

“Nai” significa negação, por isso “Mottainai” é uma expressão de tristeza sobre o repúdio dos laços que ligam todas as entidades vivas e não vivas. É também um grito de guerra para restabelecer esses laços e reafirmar a importância de tratar todos os objetos animados e inanimados com muito cuidado e sensatez.

Gratidão, Michi, por compartilhar conosco esse conceito tão especial.

Água, Planeta Terra!

Daniela Leite

Ontem conversando com uma amiga surge o tema da falta de água, dessa estiagem terrível que estamos passando e a conversa caminha pela ausência de consciência individual, coletiva e política que faz a situação piorar a cada dia. Poucos são os conscientes que reduzem o tempo de banho, a lavagem do carro, fazem coleta da água cinza da máquina de lavar, da água da chuva, enfim, tomam as medidas necessárias de cuidado e preservação desse que é um dos bens mais preciosos para a nossa vida. Será que podemos fazer mais? Como levar essa consciência para além da nossa aldeia?

Analisamos a mentalidade individualista e como, por não haver racionamento, muitos esbanjam água, lavando calçadas, prédios, carros, preocupados que estão apenas com a sua satisfação pessoal. Exemplos não faltam, já vi até faixa de pedestre sendo lavada em pleno meio-dia, por uma senhora que, tranquilamente observava a água escorrendo desgovernada.

We’ve seen many students who have had bad experiences from the other writing services and they were desperately searching the assignment help service they can trust! We understand this and therefore recommend assignmenthelpuk.org service that has been providing the best quality essay writing services online at affordable rates. So once you come to their website, you don’t have to look elsewhere. Have a look at the benefits of using their online paid help with essays about ecology or any other topic.

Saí dessa conversa refletindo muito sobre o que falamos, especialmente sobre o meu tom alarmista, baseado muito na escassez, na falta e no medo. Após algumas horas de reflexão senti que precisava escrever sobre o tema, porém, não com os argumentos postos na conversa de ontem, mas sim pensando sobre o ponto de vista da abundância. Sou uma otimista da nossa humanidade, da genialidade da raça humana. Sei que as grandes mudanças se fazem no aqui e no agora.

Como disse o físico Luiz Alberto Oliveira, o futuro é constituído de presentes inéditos. O agora é um instante, um ponto, o momento presente. O amanhã é uma construção! Não há um amanhã, há muitos amanhãs. Vários são os futuros possíveis a partir das ações que realizamos hoje.

A imprevisibilidade da vida é o que faz dela algo tão mágico e incrível. Quando achamos que tudo está correto, encaixado, em ordem, lá vem a vida e nos dá uma chacoalhada, nos arranca da zona de conforto e faz tudo se movimentar novamente.

Essa é a ordem/desordem estruturada na famosa teoria do caos, em que certos resultados determinados são causados pela ação e iteração de elementos de forma praticamente aleatória. O famoso efeito borboleta, que se refere à dependência sensível às condições iniciais. Este efeito foi analisado pela primeira vez em 1963 por Edward Lorenz. O bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, talvez, provocar um tufão do outro lado do mundo.

Pensando assim, se milhões de borboletas mudam o curso da história num simples bater de asas, sim, minha amiga, vamos conseguir reverter esse problema agindo em rede e conscientizando as pessoas ao nosso redor, que conscientizam outras e mais outras e assim o bater das asas se faz.

Durante décadas, abusamos da natureza depositando nela milhões de componentes químicos, criamos produtos altamente tóxicos, despejamos lixo de toda ordem, interferimos no curso de todos os grandes rios desse Planeta e agora colhemos os frutos das nossas atitudes. Ainda há tempo para reverter, bastando para tanto ter um olhar consciente para a vida, fazer as escolhas pautadas na sustentabilidade do ser, no amor e no pensar coletivo. A chave para a nova era está no pensar coletivo, em entender que somos todos poeira de estrelas e precisamos andar unidos, sem barreiras e que o meu bem estar afeta o bem estar de todos. Como pensar em falta d’água se vivemos no Planeta Água?

Não precisamos vibrar na falta, no medo, mas apenas fazer a nossa parte, o que julgamos o correto a ser feito e plantar essa semente ao nosso redor. Uma atitude muda o mundo!

loading